Contos de Quinta: Medidas Paliativas

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Essa não era a primeira vez que ela tivera uma ideia do tipo. Certa vez, com o coração apertado, resolveu que mudar todo o guarda-roupa seria a solução. Por se tratar de ser algo muito caro e trabalhoso, essa opção foi posta de lado dessa vez. Lembrou-se então, daquela outra vez, quando estava tão tristinha e cabisbaixa e ia descontar tudo tomando banho de sol e piscina. A sensação era ótima, no início. O poder da luz do sol queimando a pele, a sensação das mazelas saindo pelo suor e depois aquele banho gelado pra completar. Sim, a sensação era ótima nos primeiros 20 minutos. Depois, tudo parecia um saco e os pensamentos voltavam à tona rapidinho.

Não, ela precisava de algo mais eficiente dessa vez. E então veio a idéia: vou mudar meu visual! Assim como Sansão perdeu a força ao perder os cabelos, ela tinha esperança que a dor fosse embora junto com as madeixas. Chegou ao salão e pediu:

– Corta.

– Mas como? – perguntou a cabeleireira.

– Não me importa muito o corte, apenas corta!

E se prontificou a observar os pedaços de mechas caindo ao chão.

Não demorou muito pra chover elogios e só Deus sabe o poder que um elogio é capaz de fazer à auto-estima de qualquer mulher. Sim, ela sentia-se melhor. Sim, ela viu que era desejada por outros homens e, por que não, outras mulheres! Sim, ela gostava de se olhar ao espelho e sentir-se outra mulher.

Mas a dor, aquela desgraça teimosa e insistente, continuava lá

Contos de Quinta

Pés Descalços

A respiração de Aline era ofegante e ela ainda estava descruzando as pernas – resultantes de um belíssimo orgasmo – quando Cadu se aproximou, afastando pra trás a franja que estava a cobrir o rosto dela.

– Tava com saudade de você. Você ta bem?

Se tinha uma coisa que ela odiava era que lhe fizessem perguntas quando ela ainda tava, praticamente, terminando de gozar. Mas nesse caso, a situação era pior. A verdade é que ela odiava o tom da voz dele ao perguntar “você ta bem?”, como se soubesse de alguma coisa. Como se soubesse que ela não estava de fato, nada bem.

– Estou ótima, e você?

Aline se apressou em levantar e, segurando o lençol contra o corpo com uma mão, foi tateando até encontrar a sua carteira de Marlboro Lights com a outra.

– To bem. Como sempre, trabalhando muito. Aquela mesma correria de sempre. Mal to tendo tempo de parar em casa, acredita? – Pausa pra acender o cigarro dela e pegar um pra ele também –  Eu tentei parar. Consegui por um tempo, mas é foda. Com o corre-corre que é minha vida, é quase impossível me manter longe da nicotina. Mas me fala de você, faz tanto tempo que a gente não se vê. Até tive vontade de te ligar um dia desses, mas tive que viajar no único dia que teria folga…

– Cadu, ta tudo bem. Ta tudo bem! Eu to bem, você ta bem, vamos pular essa parte?

– Você continua a mesma mal humorada de sempre.

– Não sou mal humorada, só sou prática. Não precisa vir com esse papo de “estou super interessado em saber o que esta acontecendo na sua vida”.

– Mas eu to mesmo. Gosto de você. Gosto de saber o que você anda fazendo.

– Não ando fazendo nada demais. Só o de sempre.

Ela se levanta, coloca a calcinha e corre para o som na intenção de colocar uma música e dar um fim àquele papo quase constrangedor.

– Bebendo muito, fumando muito, saindo muito?

– É, o de sempre.

– Meu amor, por que você cont…

– Não me chama de meu amor. – Ela interrompe.

– Por que você me ligou?

– Por que eu queria te ver, ah… você sabe!

– Não é mais fácil contratar um garoto de programa?

Ela se aproxima dele, olhando nos olhos com um sorriso sacana. Mãos nos quadris levando-os pra perto dos seus. Esse era o máximo de intimidade que ela se permitia sentir com ele.

– Você também gosta, que eu sei.

Meia hora depois, a cena se repetia: ele tentando se aproximar dela, ela saindo pra buscar um cigarro.  E quando, finalmente, ele foi embora. Ela dormiu abraçada com o travesseiro onde ficou o perfume dele.