Respira, senão você pira

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Não era primeira vez que uma cena daquelas acontecia. Uma eternidade tentando acordar a filha, seguida de meia hora pedindo pra que se vestisse, 10 minutos pra começar a escovar os dentes e bem quando você já estava 30 minutos atrasada, aquele pedido: – passa esse batom em mim. Então você pensa que um minuto a mais ou um minuto a menos de atraso não vai fazer diferença e vai lá na boa vontade. Mas imagina passar um batom numa boca que não é a sua. Numa boca de alguém que não entende o sentido da frase “fica parada”. Numa boca de alguém que, entre todas as cores escolheu logo a vermelha. Sim, é claro que você borra, se irrita e diz que ela vai ter que ir assim mesmo pois não tem mais tempo pra ir ajeitar. E aquele sorriso empolgante por poder ir a escola enfeitada como queria se torna uma expressão de tristeza tão profunda que você pensa que nenhum compromisso no mundo todo é mais importante do que deixar a filha satisfeita.

Tudo bem, vamos tentar consert… borra de novo e aquilo é suficiente pra liberar o monstro que há em você. Grita pra cá, joga batom pra lá, puxa pra lá e pra cá e então para pra enxergar o  pânico em forma de lágrimas. Não manha de alguém que não vai conseguir o que quer, não birra de alguém que não sabe ouvir um não, mas medo. Medo na sua filha de 6 anos provocado por você mesma. Só nesse momento que você faz o que deveria ter feito desde o começo: para e respira, senão você pira.

Por mais ajuda que você tenha, o trabalho de mãe é só seu e requer dedicação 100% sempre, mas sendo mãe solteira essa porcentagem sobe pra 500. É seu o trabalho de acordar cedo, arrumar pra escola, fazer o lanche e ainda encontrar um tempo pra vestir qualquer coisa que não seja um pijama pra poder ir trabalhar de uma maneira apresentável. Tudo isso, fazendo seu possível para chegar na hora, pra que o(a) filho(a) não perca conteúdo e saia prejudicado(a). Também é sua responsabilidade levar e buscar em curso de inglês, natação, ballet e qual mais atividade você achar que é importante que a criança faça, assim como todas as tarefas de casa são auxiliadas unicamente por você, pois é sua função educar também. Está escrito no seu contrato de mãe que você deve cuidar, banhar, ensinar, medicar, divertir, aconselhar, reclamar, prover, cobrar, amar. E em letrinhas bem pequenas, daquelas que você tem que pegar uma lupa pra ler está escrito: pirar.

Sim, por muitas vezes você vai pirar. Vai gritar, espernear, arrancar os cabelos e chorar. Infelizmente, às vezes isso vai acontecer na frente deles, os filhos. E eles vão ficar tristes, vão se assustar, vão chorar junto com você. Você vai achar que é péssima nesse trabalho, que deveria ser substituída por alguém melhor e que todo mundo consegue dar conta, menos você. Acredite, não é verdade. Somos mães e fazemos desse trabalho algo extremamente satisfatório e prazeroso, mas não somos perfeitas. Assinamos nosso nome no contrato sabendo todas as implicações que nos caberiam. Mas se você pegar o papel e procurar bem direitinho, você vai achar a parte que manda você respirar fundo, que vai dar tudo certo. Você vai conseguir.

Contos de Quinta: Medidas Paliativas

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Essa não era a primeira vez que ela tivera uma ideia do tipo. Certa vez, com o coração apertado, resolveu que mudar todo o guarda-roupa seria a solução. Por se tratar de ser algo muito caro e trabalhoso, essa opção foi posta de lado dessa vez. Lembrou-se então, daquela outra vez, quando estava tão tristinha e cabisbaixa e ia descontar tudo tomando banho de sol e piscina. A sensação era ótima, no início. O poder da luz do sol queimando a pele, a sensação das mazelas saindo pelo suor e depois aquele banho gelado pra completar. Sim, a sensação era ótima nos primeiros 20 minutos. Depois, tudo parecia um saco e os pensamentos voltavam à tona rapidinho.

Não, ela precisava de algo mais eficiente dessa vez. E então veio a idéia: vou mudar meu visual! Assim como Sansão perdeu a força ao perder os cabelos, ela tinha esperança que a dor fosse embora junto com as madeixas. Chegou ao salão e pediu:

– Corta.

– Mas como? – perguntou a cabeleireira.

– Não me importa muito o corte, apenas corta!

E se prontificou a observar os pedaços de mechas caindo ao chão.

Não demorou muito pra chover elogios e só Deus sabe o poder que um elogio é capaz de fazer à auto-estima de qualquer mulher. Sim, ela sentia-se melhor. Sim, ela viu que era desejada por outros homens e, por que não, outras mulheres! Sim, ela gostava de se olhar ao espelho e sentir-se outra mulher.

Mas a dor, aquela desgraça teimosa e insistente, continuava lá